quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Comprador de sonhos


Eu compro sonhos fascinantes e mentiras bem contadas. Alguém quer vender?

Conte-me a sua estória, seus sonhos, trajetória, pensamentos, me conte com ironia, sarcasmo, emoção, mas faça valer como verdades, pode aumentar, pode distorcer, pode resumir, mas faça soar como verdades.

Busque fontes fidedignas ou datas incertas, nomes verdadeiros ou falsos, cores, condição do tempo, período histórico, mas faça soar como verdades.

- Estávamos eu, Júlia, Carlos, o Luiz e a Fernanda (será mesmo que a Fernanda foi?), era uma tarde ensolarada (sol ou mormaço?) numa praiazinha em Ubatuba, em 2003 (ou seria Caraguá em 2002).

Esqueça os parênteses, mesmo que não se lembre de tudo, mesmo que lhe falhe a memória, que haja confusão ou indecisão, faça tudo soar e valer como verdades.

Eu compro os seus sonhos inatingíveis, multicoloridos: uma casinha de palha no norte de Minas Gerais, um lugar ermo no ponto mais oriental do Oceano Atlântico, uma pousada em Trancoso... eu acredito no seu amor incondicional, eu acredito no seu companheirismo, eu acredito na sua fidelidade, mas me faça soar como verdades. Compro sorrisos sinceros, abraços fraternos, eternas amizades, desde que soem como verdades.

*Um homem na rua me pára e conta os últimos acontecimentos de sua vida:

- Senhor, tem um dinheiro pra me dar, eu vim pra São Paulo há um ano, nessa cidade só me dei mal, fui acusado de algo que não fiz, fui preso, agora que saí da cadeia, não consigo mais emprego por ter ficha suja na Polícia. Preciso juntar dinheiro pra comprar passagem e voltar pro interior, Araçatuba, onde tenho mulher e filhos, até agora tenho 15 reais, tá difícil de conseguir os 67R$ que eu preciso, pois uso parte do dinheiro que me dão pra comer e tomar banho.

Ouço toda a estória, faço perguntas durante a conversa, esboço familiaridade por também ter parentes no interior, dou o dinheiro, desejo boa sorte e vou-me embora.

Ao chegar ao trabalho comento com um colega o ocorrido e ouço a seguinte afirmação:

- Era tudo mentira, esse cara vai pegar o dinheiro pra comprar drogas, ou bebidas.

Não me importo com o que aquele rapaz ia gastar os míseros 5 reais que lhe entreguei, quem sou eu para julgar?Afinal, eu compro sonhos fascinantes e mentiras bem contadas. Alguém mais quer vender?

*Ponto importante para a criação desta minha filosofia de bar.

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